Mês: setembro 2018

Nova lei nos EUA ajuda calçadistas

Nova lei de comércio exterior dos Estados Unidos, sancionada pela Casa Branca, deve beneficiar exportadores brasileiros de calçados. Em 13 de outubro, entra em vigor a lei “Miscellaneous Tariff Bill Act of 2018”, que prevê a redução de tarifas de importação para mais de 1,6 mil produtos, dentre eles, calçados.

A lei tem vigência prevista até 31 de dezembro de 2020, mas o governo americano pode encerrar o benefício antes do prazo, se julgar necessário.

A lei reduz tarifas para 40 categorias de calçados, incluindo sintéticos, de couro, de tecidos e de segurança. As tarifas, até agora, variavam de 6% a 37,5% sobre o valor do calçado.

No caso do Brasil, 60% dos calçados exportados aos EUA serão isentos de tarifas, disse ao Valor Priscila Linck, coordenadora de Inteligência de Mercado da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados). Os demais 40% tiveram as tarifas reduzidas. “Com as medidas, os calçados brasileiros chegarão ao varejo americano mais baratos. Isso pode melhorar a negociação dos fabricantes brasileiros”, disse Priscila.

A Radamés Soulmade Shoes, que exporta calçados de couro aos EUA desde 2008, espera acelerar as vendas. A empresa já previa ampliar os embarques ao mercado americano em 15% neste ano, para 25 mil pares. “Acredito que com a redução de tarifas vamos fechar mais negócios no varejo americano”, disse Maurício Ávila, gerente de exportação da Radamés. O executivo vai analisar como fica a demanda nas próximas semanas para buscar novos clientes.

A Kidy Calçados Infantis, de Birigui (SP), vai começar agora a buscar novos clientes nos EUA. “Vamos aproveitar o câmbio favorável e oferecer preços mais competitivos agora, para tentar deslanchar as vendas nos Estados Unidos, que neste ano estão estáveis”, disse Rodrigo Nunes, gerente de exportação da Kidy. A empresa produz 20 mil pares por dia e exporta em torno de 15% da produção. Os EUA são seu segundo maior mercado, atrás da Arábia Saudita.

Nos últimos dois anos, o Brasil perdeu espaço no mercado americano para calçados fabricados na Ásia, em particular na China. Em 2017, os EUA importaram 2,38 bilhões de pares de calçados, movimentando US$ 25,14 bilhões. A China respondeu por 71% dos pares e 59% do valor. O Brasil, em 2017, exportou somente 12 milhões de pares aos EUA, somando US$ 204 milhões, segundo a Associação Americana de Distribuidores e Varejistas de Calçados.

A boa notícia para os calçadistas brasileiros é que a China não se beneficiará da nova lei americana. A Casa Branca aprovou, há poucas semanas, uma nova lista de produtos chineses, no valor de US$ 200 bilhões, cuja tarifa de importação subiu para 10% e isso incluiu calçados de couro.

Nos últimos dois anos a indústria brasileira vem perdendo mercado nos EUA. De janeiro a agosto deste ano, o Brasil exportou 6 milhões de pares aos americanos, com queda de 11,6% em relação ao mesmo intervalo de 2017. Em valor, houve queda de 19,5%, para US$ 100,3 milhões. As exportações de calçados em couro aos Estados Unidos foram as que mais caíram neste ano, até agosto.

O mercado americano, até março deste ano, era o principal destino dos calçados brasileiros. A Argentina tomou o lugar. Mas calçadistas ouvidos pelo Valor dizem que as vendas aos argentinos devem cair nos próximos meses, devido a dificuldades financeiras dos importadores.

Nos primeiro oito meses deste ano, as exportações brasileiras totais de calçados caíram 10,2%, para 69 milhões de pares. Em valor, houve queda de 10,3%, para US$ 628,3 milhões.

A Bibi Calçados e a Via Uno informaram que não esperam mudanças significativas nas exportações neste momento. Procuradas, Grendene, Alpargatas e Arezzo não quiseram comentar o assunto.

Fonte: Valor

 

 

Brasileiro aplica mais no exterior

Os brasileiros nunca investiram tanto no exterior. Os motivos estão ligados tanto à busca por  efúgio contra o risco do país em um momento tão conturbado, quanto ao aumento da oferta de fundos internacionais no mercado local nos últimos anos – movimento impulsionado pelos juros baixos, que elevou a demanda por diversificação, e pelas mudanças regulatórias recentes.

A maior procura por estratégias no exterior se acelerou a partir do ano passado, com o vazamento das gravações do empresário Joesley Batista, da JBS, que provocaram perdas expressivas para os ativos brasileiros e evidenciaram a importância de ter um portfólio diversificado. No primeiro pregão após o evento, o Ibovespa teve desvalorização de 8,8% e o dólar subiu 8,06%.

Hoje, a procura continua, mas principalmente por carteiras em que o investidor fica exposto tambem à oscilação cambial. Isso porque o incerto cenário eleitoral tem levado o dólar às alturas. Com o cenário político, “o mercado aqui tem sido mais volátil e um fundo de ‘global equity’ não ‘hedgeado’ como o nosso está dando mais de 27% de valorização no ano”, diz Fernando Cortez, chefe de vendas da gestora Schroders.

De acordo com levantamento feito pela J.P. Morgan Asset Management, o valor dos ativos sob gestão dos chamados “feeders” internacionais, ou seja, fundos constituídos no Brasil para alocar recursos em carteiras específicas no exterior, quadruplicou de tamanho, passando de R$ 4,6 bilhões em dezembro de 2016 para os atuais R$ 18 bilhões. O número de cotistas se expandiu ainda mais. Segundo a pesquisa, houve um crescimento de quase 10 vezes, de 5,8 mil para cerca de 56 mil no período. O pico foi neste ano, em fevereiro, quando o número de investidores nos feeders atingiu 71,8 mil e o valor sob gestão, R$ 21,3 bilhões.

As estatísticas da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) relacionadas às classificações de “investimento no exterior”, que englobam, além dos feeders, todas as carteiras com predominância de ativos de fora, mostram um salto de 25,2% no patrimônio líquido da categoria renda fixa entre janeiro de 2017 e agosto deste ano, de R$ 736 milhões para R$ 921,5 milhões. Já o tipo ações investimento no exterior registrou uma expansão ainda maior, de 168,8%. A classe subiu de R$ 17,8 bilhões para R$ 47,8 bilhões do início de 2017 até agosto deste ano.

A principal categoria da Anbima de portfólios que alocam a maior parte dos recursos lá fora, a dos multimercados, abrange também grande parte dos chamados feeders internacionais. O grupo teve um incremento de 33,5% no patrimônio líquido entre o fim do ano passado e agosto de 2018, de R$ 265,7 bilhões para R$ 354,6 bilhões.

“A turbulência que se viu no mercado a partir de maio de 2017 serviu de gatilho para que o investidor brasileiro prestasse ainda mais atenção aos portfólios com ativos investidos no exterior”, aponta Giuliano de Marchi, responsável pela gestora do J.P. Morgan na América Latina.

O gestor pondera, contudo, que a década atual apresentou diversos episódios e choques para a economia brasileira que têm ajudado a despertar a consciência do investidor local para a importância de manter uma parte do patrimônio sem relação com os movimentos domésticos. “Os últimos dez anos trouxeram bastante volatilidade para os brasileiros, com altos e baixos no ciclo das commodities, a crise financeira global, mudanças políticas e a pior recessão na história recente do país”, resume.

O presidente da Franklin Templeton no Brasil, Marcus Vinicius Gonçalves, classifica a delação do empresário da JBS como um “catalisador” para o movimento de procura por investimentos no exterior. Porém, o gestor aponta os juros baixos, com a Selic na mínima histórica, em 6,5% ao ano, como principal fator para o aumento da demanda. “A taxa de juros é a grande fomentadora de tudo isso porque força as pessoas a olhar para diversificação.”

O aumento da exposição ao exterior veio a reboque da chegada de mais fundos no mercado. De fato, neste ano várias casas independentes de fora inauguraram veículos de investimentos locais para alocar recursos em portfólios no exterior, como a americana Oaktree. Até marcas que não estavam presentes no país decidiram estrear no mercado brasileiro, caso da holandesa Robeco. São gestoras que vieram se juntar a nomes como Pimco, BlackRock, Franklin Templeton, Principal, Schroders, Aberdeen e Western já presentes no Brasil. Mas tem mais gente chegando.

O chefe de vendas internacionais do BTG Pactual, Marcos Pimentel, responsável pela distribuição de fundos de terceiros no país, afirma que o banco, além do já anunciado acordo de representação da Robeco, tem mais quatro contratos com gestoras internacionais em processo de assinatura e outros 12 na fase de conversação.

“No fim deste ano, teremos ao menos mais três casas de fora em nosso portfólio de distribuição”, diz. No ano passado, a área do BTG ainda não tinha nenhuma gestora internacional na prateleira. “Essa indústria praticamente não existia há dois anos, ninguém fazia essa distribuição de fundos internacionais de terceiros”, afirma Pimentel.

No mercado local, a gigante do mercado americano Pimco foi a que apresentou o maior crescimento. A casa tem hoje o maior fundo internacional para alocação de recursos a partir do Brasil, o Pimco Income FIM IE, com cerca de R$ 6 bilhões em patrimônio líquido. No início de 2017, a carteira reunia cerca de R$ 90 milhões.

Os feeders internacionais, contudo, representam uma fatia de apenas 0,41% do patrimônio da indústria de fundos, de R$ 4,43 trilhões em agosto de 2018, conforme dados da Anbima. Para os gestores, em cinco anos as estratégias fora podem representar até 5% desse total. Isso significa um potencial de expansão dos atuais R$ 18 bilhões para uma fatia de R$ 221,5 bilhões. Mas as cifras podem ser ainda maiores.

“Considerando um público de investidores qualificados no Brasil de cerca de 600 mil investidores e um CDI médio a 10% ao ano, calculamos que, se o mercado de gestão de recursos no Brasil chegar à casa dos R$ 6 trilhões em cinco anos, o segmento de fundos globais poderia chegar facilmente corresponder a uma fatia de 5% desse total, equivalente a R$ 300 bilhões”, calcula Marchi, do J.P. Morgan.

O mercado pode contar com um impulso adicional dos fundos de pensão. A resolução 4.661 do Conselho Monetário Nacional (CMN), publicada em maio deste ano, trouxe maior flexibilidade so segmento para investir no exterior. Antes da regra, as entidades de previdência fechada só podiam investir no exterior por meio de um veículo constituído no Brasil especificamente para isso e ainda tinham um limite de 25% de participação nesse fundo específico. Ou seja, se uma instituição quisesse aplicar lá fora precisava encontrar outras três que se dispusessem a entrar nessa carteira, cada uma dona de um quarto das cotas.

Mudança regulatória pode levar fundos de pensão a multiplicar alocação de recursos em ativos no exterior

Agora as normas estabelecem um limite geral de 10% do patrimônio da fundação para a alocação no exterior e permitem que a entidade monte um fundo exclusivo, ou seja, detenha 100% das cotas de um veículo constituído no Brasil para investir fora. “Entre os institucionais deve ter um crescimento interessante, com produtos exclusivos”, considera Gonçalves, da Franklin. Cortez, da Schroders, enxerga potencial para a alocação no exterior por parte de fundos de pensão multiplicar de tamanho.

“A gente tem um termômetro muito bom desse segmento de institucionais, que é nossa base de clientes, e temos tido muita procura por parte de fundos de pensão”, afirma Cortez. Segundo o executivo da gestora britânica, as entidades fechadas mantêm atualmente cerca de 0,5% do patrimônio em ativos no exterior. “Vejo esse 0,5% dos fundos de pensão chegando a 5% em dois a cinco anos e, talvez, a 10% em dez anos”, avalia.

Além do fortalecimento da presença de investidores institucionais, outra tendência observada pelos gestores é um crescimento de ofertas de fundos com hedge cambial, ou seja, que retiram a oscilação da moeda do cálculo de retorno. “Os investidores preferem opções com hedge cambial, mas temos visto recentemente um crescimento expressivo na demanda para produtos expostos à variação cambial”, diz Marchi, do J.P. Morgan.

O gestores veem os fundos de fundos internacionais com proteção cambial com olhos diferentes daqueles sem hedge, porque, em última instância, o investimento tem de ser olhado como sendo em reais. De acordo com o gestor do banco americano, “os fundos globais com hedge são uma ótima opção para competir com os fundos multimercados locais”. Para Pimentel, do BTG, “o investidor brasileiro vê seu investimento em reais, então nosso desafio é oferecer estratégias internacionais que ele não encontra por aqui, sem risco cambial”.

A grande vantagem dos portfólios internacionais que retiram da conta a variação cambial é a possibilidade de o investidor buscar retornos sem ligação com os fatores de risco domésticos, como eleições, fluxo de investidores estrangeiros e preços de commodities. “A briga aqui agora é para sofisticar e mostrar para o cliente local que ele tem opção de se desassociar do risco do Brasil e pode alocar em um lugar diferente que não tenha nada a ver com as nossas questões”, afirma Pimentel.

O fundo multimercado Western Asset US Index 500, por exemplo, busca superar o S&P 500, um dos principais referenciais da bolsa de Nova York. O desempenho do portfólio, que tem hedge cambial, ilustra a descorrelação com o mercado brasileiro. No dia 18 de maio do ano passado, enquanto o Ibovespa perdia 8,80% como reação às denúncias do empresário Joesley Batista contra o presidente Michel Temer o US Index 500 exibia ganho de 0,31%. No ano até junho, a carteira acumula ganho de 7,17%. No primeiro semestre, o Ibovespa teve um recuo de 4,76%.

Outro fundo com proteção cambial, o Global Schroder Quality, aloca os recursos em um portfólio internacional que tem como referencial o índice MSCI World. A descorrelação com o Ibovespa fica evidente ao comparar os retornos no ano. Na medida de rentabilidade em 12 meses, o fundo da Schroder permaneceu abaixo do índice brasileiro até o fim de maio. A partir de então, abre uma dianteira do referencial local e, na sexta-feira passada, acumulava alta de 8,90% contra recuo de 0,43% do Ibovespa.

Já os fundos sem hedge cambial não têm precisado fazer muito esforço para apresentar rentabilidade elevada devido à recente desvalorização do real, impulsionada por fatores externos e internos. O fundo de investimento em ações do BNP Paribas que não usa hedge, o Access USA Companies, alcança rentabilidade de 67,34% em um ano até junho – boa parte vinda da alta do dólar -, conforme levantamento da Luz Soluções Financeiras. Os gestores lembram, porém, que o fator cambial traz de volta a volatilidade associada ao risco do país aos portfólios.

Fonte: Valor